quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Fratura

Nunca viveu de fato quem não teve uma fratura! (Deveria constar naquela lista enfadonha:  plantar uma árvore- escrever um livro- ter um filho- quebrar uma fíbula)

O tempo dos esqueletos é diferente do das pessoas que reclamam do trânsito. Ossos quebrados não sabem correr ao vislumbre dos amarelos nem avançar aos vermelhos. 

Passo a admirar os degradês dos hematomas, numa paleta pouco óbvia para gentes que combinam cores e pintam os próprios olhos, mas nada entendem sobre sinais (os verdes, os amarelos e os vermelhos). 

Conheço a coesão de parafusos que não apitam em portas giratórias nos bancos, em aeroportos, mas que precisam ser carregados sobre rodas no shopping. 

Gosto de pensar que agora moram em mim, remendando corretamente alguns de meus pedaços partidos numa argamassa que se autorregula consumindo meus melhores minerais. 

Me torno um ser meio séssil, um fóssil meio metálico, eu, a menina das múmias, embalsamando cuidadosamente meus pontos que explodem ao menor dos exageros.