sábado, 1 de março de 2025

Arritmia

A bomba vermelha implode tambor contra a caixa torácica e reverbera com a força cataclísmica de mil disparos. Meu peito dinamite se descontrola e só acelera quando não há vigia: coração de passarinho na gaiola apertada… 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

 Se perguntarem porque fui médica, vou dizer que pra desatolar amigas durante a madrugada

Acalmar corações aflitos sobre os contágios, consolar as perdas e pedir os sangues. Passar vacinas para as grandes viagens

Assim me faço detentora dos saberes noturnos desesperados. Amigas que me confessam e me confiam

que nunca me acham feia, fútil, frívola e frágil. Mas que se acharem, tudo bem, porque sou isso também

(Mal sabem elas que me cuidam quando me pedem cuidados)




domingo, 23 de fevereiro de 2025

Engasgo

Engasgo no vazio dos amores e dos (não) acontecimentos que muito foram pensados, porém desfeitos ou fragmentados aos soluços; interrompidos como frases mal proferidas e profanadas pelo último suspiro caquético e cardíaco dos moribundos…
Por todos os aniversários, feriados e formaturas não comemorados por nos sentirmos fracos, porque sentimos firme a presença dos nossos fantasmas e a ausência nossos mortos. 
Pelas vitórias que assim não foram porque nunca serão repartidas e portanto se partem antes de um adeus ou de um último abraço.

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Fratura

Nunca viveu de fato quem não teve uma fratura! (Deveria constar naquela lista enfadonha:  plantar uma árvore- escrever um livro- ter um filho- quebrar uma fíbula)

O tempo dos esqueletos é diferente do das pessoas que reclamam do trânsito. Ossos quebrados não sabem correr ao vislumbre dos amarelos nem avançar aos vermelhos. 

Passo a admirar os degradês dos hematomas, numa paleta pouco óbvia para gentes que combinam cores e pintam os próprios olhos, mas nada entendem sobre sinais (os verdes, os amarelos e os vermelhos). 

Conheço a coesão de parafusos que não apitam em portas giratórias nos bancos, em aeroportos, mas que precisam ser carregados sobre rodas no shopping. 

Gosto de pensar que agora moram em mim, remendando corretamente alguns de meus pedaços partidos numa argamassa que se autorregula consumindo meus melhores minerais. 

Me torno um ser meio séssil, um fóssil meio metálico, eu, a menina das múmias, embalsamando cuidadosamente meus pontos que explodem ao menor dos exageros.


segunda-feira, 17 de julho de 2023

A menina de patins

Sentenciava aos seis anos a quem se dispusesse: 

“Pediatra, poetisa e patinadora de supermercado!”

Com a inocência das possibilidades descabidas e despretensiosamente despudoradas talvez hoje me orgulhasse das meias conquistas e impropérios da vida.

O que me falta hoje é o lirismo abjeto e abstrato, desfigurado, desmedido e sem rimas…

Deixei para trás as rodas nos pés e a falta de atrito entre as intenções e o assoalho encerado.

Uma lacuna qualquer no espaço e tempo onde pequenos deslizes de passos trêmulos se tornariam aventuras maiores;

até chamar a atenção de um segurança no shopping, ao custo de interrupção das brincadeiras de estragar o piso… 




terça-feira, 7 de maio de 2019

A mulher que me tornei

A mulher que me tornei

Transborda em si
as angústias torrentes.
E cativa o vazio do peito
em seio farto,
fruto de pesar.
Penso,
logo ergo-me ao(s) sentido(s)
E se te pareço nublada e imprecisa.
 Olha-me de novo...

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Poema amoral

 


Poeminha amoral:

Jurei, senhor,
Não ser igual:
Banal-normal,
Poema de amor...

Pobre o poema,
Pobre do poeta,
A rima pobre:
Amor e dor!

Aceito a rima,
Se obra-prima,
Amor desatino,
Obra de destino 

Descomunal,
Desconjuntado,
Mais vivido,
Menos jurado,

Moral de poema



Imoral de amor...