domingo, 16 de novembro de 2014

Vicissitudes

Vi-cis-si-tu-des:

-vida- sus-sur-ra
ao pé do ouvido...

(faço que
não escuto)

cego e surdo,
(eu nunca mudo)

o ultrassônico
grito irrompe

aos ouvidos
de morcego...

ecoa luminosa,
(outrora aurora)

no olhar pétreo,
em vítreo espanto!

clara, cintilante,
a chama-clama

por um novo
Despertar...



quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Vestir-se

Às vezes, sinto como se vestisse um pouco ou muito das pessoas de que mais gosto e que convivem comigo...

Quando elas se vão, qualquer que seja o motivo, é como se me pegasse nua ao espelho...

E é como se seguisse, camaleoa, porém pelada, aguardando pela próxima troca de pele...

Por ora, queria mesmo estar camuflada e invisível, sem revelar de fato minha essência inteiramente nua...

Depois, espalhafatosamente vestida, como quem grita para o mundo todo ouvir que não sabe o que vestir agora que está pelado...

Ora, mas por que é tanto desconforto andar pelado?

E continuar pelado, desarmado e desalmado ainda que vestido e pintado de ouro?

Deviam prender almas nuas como a minha por desacato ao pudor...


terça-feira, 4 de novembro de 2014

AOS APAIXONADOS POR MÚSICA

Dizem por aí que, ao nos apaixonarmos, sentimos “borboletas no estômago”.
Verdade ou mito, sinceramente, eu não sei. 
Ou acho que sei... porque é exatamente essa a sensação que tenho ao escutar uma música MUITO, MUITO, MUITO boa!
Seja no momento elegido ou mesmo de surpresa, sabe aquela música que lê a gente, nos vira do avesso e faz sair da órbita de si? Eu sei.
(Algo semelhante acontece quando lemos um poema ou texto que nos traduz.)
A mais pura expressão da catarse são as borboletas, que reviram a gente por dentro e fazem cócegas no estômago.
Às vezes, é algo violento e paralisante que se parece mais com um soco... soco no estômago...
Acho que é isso que chamam de visceral, o estado mais catatônico da catarse...
O choque de deparar-se consigo mesmo e a própria humanidade traduzidos em sonoridade e poesia, uma das melhores e mais perturbadoras sensações que existem!
E eu tenho fé, ainda que momentaneamente, numa humanidade cuja finitude é desvendada através da infinita viagem musical... na talvez mais mágica, transcendental e universal das linguagens... a música!
Sim, porque, como diria o futurista Aldous Huxley: "Depois do silêncio, aquilo que mais aproximadamente exprime o inexprimível é a música."

Lugar Comum

“A vida é arte do encontro/ Embora haja tanto desencontro pela vida”- Vinicius de Moraes

Hoje eu fiquei presa no elevador do hospital... não parada, curiosamente, apenas presa, entre subidas e descidas, risadas e suspiros nervosos de gente que, como eu, passava aperto enquanto tentava se deslocar de um lugar em direção a outro.

Gente que, automaticamente, saia de uma longa fila de espera para se espremer dentro de um cubículo lotado e ir de encontro a seus compromissos. Estudantes, médicos, professores, enfermeiros, maqueiros e acompanhantes de pacientes.

E como descreverei a angústia e a cumplicidade desses desconhecidos que foram levados, por alguns instantes, à súbita ideia de que estariam meramente de passagem nesta vida; para então se apegar à lembrança do tempo e dos afazeres que perdiam, como que a um álibi silencioso para tão momentâneo sofrimento?

E como descreverei a amarga sensação de descontrole e desencontro de quem se atrasava para uma aula, prova ou horário de visita? De quem, secretamente ou não, experimentava o medo e a apreensão diante dos altos e baixos do destino?

E, mais ainda, como descreverei a sensação de alívio e renovação de quem se vê livre de um pequeno cárcere? Aquela doce alegria de quem foi levado a se lembrar rapidamente da própria existência para finalmente correr em direção às escadas e retornar ao seu esquecimento diário?

Ah, como é bom poder (re)encontrar não o extraordinário, mas aquilo que nos é comum!

Soneto à Medicina

Soneto à Medicina:

Apresento-lhes pois a anatomia
Daquela máquina de humana essência
Mazela esta, tratamento varia:
Acordes regidos pela ciência

Agorafobia à dor de abdome agudo
Protocolo, cólon, colo do útero
De fratura exposta até corpo lúteo
Trabécula da molécula, eu estudo

Com esteto, artigo randomizado,
Punção bem profunda, risco cirúrgico
Palpo o fígado e suturo a ferida

A minha graça? Médico (in)formado
O meu juramento é quase litúrgico
E, como trabalho, uma escolha: a vida...

             Marina Bueno- 2011

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Poema de Saco Cheio

Queria apenas dizer
Que estou de saco cheio
Das coisas e de você...
Ideia melhor não veio,
Pois decidi encher
Com esse saco furado,
Rasgado de tanto papo,
Novelinhas e papelões
Um poema coisa-à-toa,
Não molha mas só garoa
Mata tempo e passa borrões.

domingo, 2 de novembro de 2014

Atrás do biombo (redação do pH-2007)

Minha mãe era psicanalista e tinha muito orgulho de sua profissão... 

Já tinha esse orgulho, dizia ela, muito antes de se formar e praticar a psicanálise.

Ainda era jovem quando conhecera uma senhora em uma festa que lhe contara, pescoço erguido ao máximo de sua estirpe e peito inflado: "Meu pai foi o primeiro psicanalista do Brasil!"

Minha mãe (era danada) esticou-se por sua vez para retrucar, empinando seu ainda adolescente narizinho: "Pois fique a senhora sabendo que alguns dos primeiros pacientes dos primeiros analistas deste país foram provenientes da minha família do lado materno!"

"E o lado paterno?"

Bem... meu avô era um excelente advogado...

Entretanto, ainda quando minha mãe era estudante de psicologia, descobriu um texto muito interessante em meio aos papéis do pai, Lauro Müller Bueno, sobre Medicina Legal...

Escrito por um certo Portocarrero, tocava muito na fascinante descoberta da Psicanálise...

Decidiu, pois, confrontar o pai com o tal texto em mãos: "Mas como o senhor nunca me contou sobre esse autor, o primeiro a traduzir Freud!? Você o conheceu?"  

Meu avô respodeu, sorridente: "Mas é claro! Foi meu professor de Medicina Legal e com ele aprendi muita coisa... A paciente se deitava no divã e ele dizia: "Olhe para a lâmpada!! ASSOCIE...ASSOCIE, minha filha!" "

Dr. Lauro contava isso de maneira bastante teatral e minha mãe, que na época já sabia como era uma sessão de psicanálise verdadeira, desconfiou : "Mas como o senhor sabe o que ele dizia durante a sessão?"

"Ora, na qualidade de alunos destacados e prediletos do professor Portocarrero, eu e o Bozízio fomos convidados a assistir uma dessas primeiras sessões... Estávamos ali, minha cara, ATRÁS DO BIOMBO..."

E minha mãe, entendo que aquilo seria, em tese, impraticável por um psicanalista, caiu na mesma gargalhada que me domina neste instante...